Uma história de agressão

“Às vezes, a vergonha é útil. Ela pode penetrar as defesas que ela mesma construiu.” Continue lendo.

Depoimento de alguém que sofreu violência física

O romancista Thomas Keneally disse uma vez: “Escrever um romance é ir nu, não importa o que você esteja escrevendo. Você sempre se revela.”

Hoje compreendo o exercício de olhar-se no passado, muito comum por pessoas mais velhas. Não sou velha, mas também não sou tão nova. Gosto da minha idade, mas já gostei mais da pessoa que eu era.

Amava aquela menina questionadora e melancólica de natureza. Amava o jeito como ela lidava com os problemas dela e dos outros. Era dessas que estava sempre disposta a ajudar, apesar de manter uma certa distância emocional, que facilitava muito no apoio que ela sempre se dispunha a dar. Lembro que não gostava muito do nariz – sempre batatudo – e das bochechas cheias que convidavam ao amasso.

Ela nasceu velha, com uma maturidade que chamava a atenção. A avó sempre a convidava a viver a infância e a imaturidade natural e vigorosa da adolescência, mas ela sempre respondia que não sabia ser assim. Simplesmente não sabia. Sua alegria era verdadeira, porém comedida. Comedida também era a forma como expressava seu descontentamento. Sempre raivosa, zangada, nervosa – mas nunca, agressiva. Fazia o tipo amável, mas jamais confundida como uma pessoa meiga.

Histórias de violência

Respeitava a todos e esperava o mesmo tratamento. Tinha pavor a inimizade, tramoias típicas do horário do recreio. Aproveitava seu tempo com quem gostava, não desperdiçava com quem não merecia. Não julgava, só não se misturava. 

Essa menina cresceu cheia de poucos e bons amigos e na escola, tinha o respeito e amizade de vários professores, que a tratavam como uma igual. Passou bons recreios nas salas deles, comendo cream cracker e bebendo água.

Tinha uma atração pela noite, pelos discos, por uma vida onde pudesse ser livre. A mãe sempre muito rígida, afetivamente distante, era do tipo controladora. Essa menina queria ir além, morar fora, ter namorados, mas nunca casar (tá, só às vezes). Também não gostava de criança e filhos não estavam em seus planos.

Como começam as agressões

“Atraído” por esse modo de viver, por essa alegre melancolia, um dia um homem a procurou. A primeira investida foi quando ela contava com 13 anos. Um escândalo. Como de boba não tinha nada, logo avisou a quem mais confiava: a avó – que soube limar a audácia desse homem, que por sinal, nessa época, era casado.

Anos depois, foi procurada novamente. Estava naquela fase de descobrir-se mulher, estupefata com o estranho poder que poderia exercer sobre o sexo oposto. Não se pode negar, que essa sensação mexe conosco e dá uma vontade quase irresistível de brincar com isso, só pra saber se ele tem um limite.

Um dia, cedeu às investidas e ficou com ele, que tinha 14 anos a mais que ela. Presa e angustiada com a ideia de estar fazendo algo errado pela primeira vez, novamente procurou a avó, que se chocou ao saber do acontecido. Outro escândalo. Mais escandalizada ficou a mocinha, por não saber o real significado e alcance daquele seu gesto. Mas vem cá? Logo ela, que se julgava tão pé no chão? Iniciou-se um pequeno conflito interno. O primeiro de muitos que viriam.

Só depois da morte da avó, experimentando o luto e a revolta, ela resolveu se entregar a esse cara que ainda a rondava como uma mosca em cima do esterco. Iniciou-se não só um relacionamento conturbado, mas a morte daquela menina de quem tanto gostava.

Pelo luto ela chorava. E aquele caminho que estava escolhendo, a enojava e envergonhava, ao mesmo tempo que a encorajava e “fortalecia”. Isso gerou uma perturbação tão grande, que passou a se navalhar no escuro do quarto. Agindo como uma nefelibata, buscava uma espécie de consolo na dor física, quando a emocional se tornava insuportável.

Histórias de superação da violência

Queria muito ser sozinha. Optar por viver uma vida solitária é uma coisa, sentir-se sozinha, sem amparo por aqueles que deveriam te acolher e amar é outra bem diferente. 

Era um amor clandestino – isso eu aprendi com ele que tentava me convencer de que isso era muito bom! Que a vida pra valer a pena, tinha que ser vivida com intensidade. Sabia com quem estava lidando, portanto sabia o discurso que deveria empregar. A partir dali, vi e ouvi coisas que jamais pensei que existiria. Fui apresentada à maldade, ao vício e ao sexo sem sentimento. Estava entregue.

Aos 18 anos tivemos a nossa primeira noite. Foi tudo muito forçado pra que parecesse inesquecível, afinal, uma virgem merecia uma pequena tenda para que se armasse um espetáculo. Foi tudo meio nojento e eu tentava me convencer de que estava fazendo a coisa certa a qualquer repente de lucidez.

Ele era uma criatura sem nenhum atributo especial. Era feio, magro e esquisito. Falava alto, tinha um sorriso falso e um olhar malicioso. Mas conhecia o mundo, a vida – justificava. E era aquilo que eu buscava naquele momento. Uma quebra de paradigma.

Queria viver perigosamente, queria ousar, queria chocar. Enfim, queria fazer tudo aquilo que nunca havia feito. Estava negando a minha essência.

Fui iniciada no mundo do álcool e dos remédios tarja preta que ele dolosamente punha na minha boca. Dizia que era bom, que iria me acalmar, que me deixaria melhor. Experimentei embriaguezes de corpo e de alma enquanto ele ria, orgulhoso. 

Depoimento de alguém que sofreu violência física

Minha família preocupada com os constantes ataques, com as brigas homéricas, com as crises de choro que descambavam pra agressão, com o fato de eu me cortar, procurou um psiquiatra. O diagnóstico foi certeiro: síndrome maníaco-depressiva. Isso foi em 97, quando a bipolaridade ainda recebia essa denominação.

A fragilidade me tornava vulnerável às investidas dele. Sempre que me via assim, provocava situações até que elas descambassem para o vexame. As brigas começavam do nada, em momentos que elas não tinham porque acontecer. Isso me tirava do eixo, em estado constante de beligerância.

Tomava remédios fortíssimos e a cada crise, eu comia cartelas e mais cartelas de comprimidos. Não era pra morrer, claro, mas fazia isso sempre que queria apagar por uns dias. Funcionava.

A pior parte, se é que podemos eleger uma, foi quando a mocinha sempre tão cheia de ideais, levou seu primeiro tapa. O estrondoso som do silêncio, do espanto. O som daquele ato ecoaria por anos. Lembro dela correndo pro espelho. Naquele momento, com a mão no rosto, já não se reconhecia. Diante do pavor do ato, viu um filme da própria vida.

Viu as convicções escoar em lágrimas. Viu o olho inchar no mesmo momento em que o valentão desmoronava em cuidados e arrependimentos falsos.

Estava cheia de vergonha. Um sentimento tão forte e tão desconcertante. Já havia sentido vergonha de muitas coisas, mas nada se comparava a isso. Estava vulnerável pela primeira vez na vida e sem a avó como refúgio.

Não conseguir esconder uma marca de agressão é como estar nua em meio a uma multidão.

Chegar em casa e encarar a minha mãe foi ainda mais doloroso. Um olhar doído de pena e raiva.

Segui adiante mesmo sabendo que seria perigoso. Não podia de uma hora pra outra dar o braço a torcer e abdicar daquele que julgava ser o meu amor. Não podia olhar pra todos que me avisaram, que eles estavam sim, certos.

Enquanto hesitava, ele fazia como todos que tem esse padrão de comportamento fazem: transferia a mim a responsabilidade por seus atos. Pedia para ser salvo, dizia que ninguém me amaria daquela forma, que amor é intenso mesmo, que eu era uma menina e precisava aprender de uma vez, que era só um pobre homem atormentado sem jamais ter a intenção de ser violento.

Fui orgulhosa e paguei o preço.

Fui vítima de violência


Pra que submeter-me à violência desse homem? Por que escutar e dar crédito à essas historinhas de arrependimento tão patéticas, tão manjadas? Por que dar credibilidade pra alguém que bate, humilha e vive sob efeito de álcool?

A ação violenta trata o ser dominado como objeto. Como sujeito, é silenciado e torna-se dependente e passivo. Perde sua autonomia, sua liberdade e sua capacidade de autodeterminação para pensar, querer, sentir e agir.

Quão fundo é o poço?


Houve outras agressões, verbais e físicas. Sempre imaginei a dor que mulheres sentiam em situações como aquela…mas senti-la foi infinitamente pior. Vulnerável estava sob o verniz perigoso de um fetiche. Fiquei deformada por uns dias. Qualquer movimento era doloroso, e causava medo (e nojo) de olhar o meu próprio corpo.

Nesse momento, decidi levar a minha vida adiante. Estudava quase 12h por dia pra conseguir passar no vestibular. Passei aos 19. Logo no primeiro semestre, consegui um emprego no fórum. Todas essas conquistas o deixaram ameaçado. Afinal, estava, sim, me sentindo mais autoconfiante, retomando as rédeas, assumindo o controle. Sentia-me capaz e experimentava o gostinho doce da autoestima.

Lembro nitidamente da última vez em que fui agredida, pois foi a última.

Sentindo que estava perdendo terreno, ele me convidou para almoçar num dos restaurantes mais badalados na cidade. Característica muito comum de homens com esse perfil: se fiam em coisas para demonstrar sentimentos, para barganhar perdão e mostrar arrependimento.

Do nada, iniciou-se uma pequena discussão. De repente um acesso de fúria. Dizia que eu era ingrata e que agora que estava na faculdade iria facilmente me interessar por um garotão ou na pior das hipóteses, me tornar uma daquelas acadêmicas chatas e estudiosas que ninguém iria querer comer. Sim, minha gente, esse tipo de homem é extremamente, estupidamente machista.

Saí de lá não puxada pela mão, mas arrastada por um carro em movimento por quase 200m. Infelizmente tenho uma cicatriz pra lembrar desse dia. As pessoas que viram aquele ato covarde nada fizeram. E posso até imaginar o que pensaram, afinal, com o machismo se condena a vítima, nunca o agressor. Vai ver pensaram, “ela mereceu”. O espetáculo continuou em seu apartamento. Naquele dia saí de lá, com a certeza de que jamais voltaria.

Quais são os tipos de violência?

O que é mais perigoso nesse tipo de homem-violento-atormentado-coitadinho é que eles não sabem, ou não querem, ouvir um não como resposta. Não aceitam que suas vítimas deem um basta às agressões. Não aceitam. Simplesmente não aceitam.

A minha vida se tornou um inferno. As ligações eram constantes, era surpreendida por ele em todos os lugares para onde ia, era seguida, vigiada. Fui procurada inclusive no trabalho. Foi tudo arquitetado com o sentido de me desabonar, de acabar com o moral, de achincalhar-me em público.

Ele não me procurou na secretaria onde trabalhava. Fui pega na porta de entrada do fórum, no horário pleno de funcionamento. Estava lotado. Ele tentou conversar e quando disse educadamente que  não tínhamos mais nada para falar, que fazia votos de que ele fosse feliz e….armou-se o maior escândalo do universo.

Gri-ta-va que já tinha me comido tanto que eu não tinha mais serventia alguma; que eu era uma pobre suburbana a quem ele havia transformado; que não queria mais me comer…comer…comer…essa palavra foi repetida infinitas vezes em tom de deboche, de escárnio, de desprezo. Coisificada – era assim que estava. Saiu de lá algemado dentro de um camburão.

Passei por mais alguns episódios dessa natureza, com o mesmo propósito. Onde era “achada” nos lugares e execrada na frente de todos. Conseguiu inclusive entrar na faculdade. Na ocasião, foi ao Rio de Janeiro fazer vestibular para entrar como transferido, sem prestar vestibular – era prática comum nessa época.

O que é a violência moral?

Não esqueço o primeiro dia de aula do semestre que dei de cara com aquela expressão cínica, sorrindo pra mim. Desde então, perdi a paz. Ele não assistia às aulas dele, só para ficar na frente da minha sala, me encarando. Era uma espécie de pressão psicológica. Ia atrás de mim o tempo inteiro.

Um dia, tentou conversar, mas pedi que ele me deixasse em paz e seguisse sua vida. Na hora do intervalo, com todos os alunos fora de sala, entrando e saindo do bloco, ele deu mais um show. Escondi-me no banheiro.

Ele gritava da porta, que por eu ser uma vagabunda ele não iria querer mais nada comigo (inverter toda a situação é especialidade desse tipo); que eu parasse de persegui-lo, que ele estava cansado de dizer que não me queria mais, vejam vocês…. sentada num vaso sanitário, eu chorava.

Saímos de lá e fomos ao Reitor que providenciou que este saísse de lá, direto pra uma delegacia. Nessa ocasião, minha mãe me defendeu. Sentia-me menos pior, apesar de toda a fragilidade em que me encontrava.

Abrimos um TCO, fomos a audiência no Juizado Especial e experimentei o gosto amargo do desamparo de quem espera por justiça. No sistema penal brasileiro, não se pune a intenção (ameaça), mas o crime consumado. Ou seja.

Cansada de tanto terror psicológico, de andar me escondendo pelo campus e de ser ameaçada de morte, tranquei a faculdade e um pouco de mim morria naquele momento.

O que é violência psicológica e moral?

Só pra ilustrar e situar vcs no tempo. Passei quase três anos com esse cara, nem sei ao certo. Parece que foi em outra vida. A perseguição na faculdade se deu exatamente um ano após o término.

Os homens violentos, machistas, misóginos – eles não tem limites.

Portanto, tenham cuidado ao menor sinal de desrespeito. Não aceitem. Não se calem. Não confiem. Não queiram consertá-los. Não achem que o amor regenera esse tipo de gente. Não tome essa responsabilidade como sua. Não se intimidem.

Senti vergonha por tudo isso, senti um nojo de mim, impossível de descrever.

Até perceber de uma vez por todas, que esses eventos não precisavam ser negados, apagados na memória e que não era eu quem deveria se envergonhar. 

Também não poderia fazer de conta que eles não existiram, mas incorporá-los a minha vida.

Pois tudo isso que aconteceu, fez de mim a mulher que sou hoje.
Norteou as escolhas da minha vida.

Hoje, liberto-me dos fantasmas, dos pudores.

Clique para classificar este post!
[Total: 1 Average: 5]
Avatar

Mariana Poli

Criei esse blog para distrações e passar dicas. Gosto muito do mundo virtual e as novas amizades. https://tanzania-travel-templates.net/sobre/

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Voltar ao topo